Inédita conquista da América
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1948 - Inédita conquista da América
1948 - Inédita conquista da América
Em pé: Augusto, Barbosa, Rafagnelli, Danilo, Jorge e Eli
Agachados: Djalma, Maneca, Friaça, Lelé e Chico
Campeão Sul-Americano de Clubes 1948

Turno Único
Data Jogo Placar Adversário Local Jogo
14-fev-1948 2x1 El Litoral (BOLÍVIA) CHILE
18-fev-1948 4x1 Nacional (URUGUAI) CHILE
25-fev-1948 4x0 Deportivo Municipal (PERU) CHILE
28-fev-1948 1x0 Emelec (EQUADOR) CHILE
07-mar-1948 1x1 Colo Colo (CHILE) CHILE
14-mar-1948 0x0 River Plate (ARGENTINA) CHILE

Jogo do Titulode 1948


0 X 0
Vasco 6ª rodada River Plate (ARGENTINA)

Barbosa
Augusto
Wilson (Rafagnelli)
Ely
Danilo
Jorge
Djalma
Maneca (Lelé)
Friaça (Dimas)
Ismael
Chico

Técnico: Flávio Costa


Data: domingo, 14 de março de 1948 - 19:00h

Local: Estádio Nacional, Santiago do Chile (CHILE)

Público: 52.000

Árbitro: Nobel Valentini (URUGUAI)

Grizetti
Vaghi
Rodríguez
Yácono (Mendéz )
Nestor Rossi
Ramos (Ferrari)
Reyes (Muñoz)
Moreno
Di Stefano
Labruna
Loustau

Técnico: José Maria Minela

Vasco campeão (invicto) Sul-Americano de Clubes de 1948. No ano de seu cinquentenário, o Vasco conquista seu título mais importante até então. Foi também o primeiro título internacional conquistado pelo futebol brasileiro no exterior.

Expulsões: Chico (39' 2ºT).

 

Expulsões: Mendéz (39' 2ºT).

Um Expresso na História

Vasco 0x0 River Plate (Campeonato Sul-Americano de Campeões 1948)

Compilado de artigos publicados em diversas edicoes de Placar e um artigo de Geraldo Romualdo da Silva no Jornal dos Sports de 27/9/74.
No dia 14 de marco de 1948, o torcedor vascaino pode dizer: no futebol brasileiro, nao ha' nada que se compare ao Vasco. Nem time de clube nem time de Selecao. Porque neste dia o Vasco esta' realizando um feito inedito: o incrivel Expresso da Vitoria traz de Santiago do Chile o primeiro titulo internacional conquistado pelo futebol brasileiro no exterior. O Vasco torna-se campeao dos campeoes sul-americanos. E isso seria pouco, se o principal adversario nao fosse o River Plate - o time argentino que o mundo chamava de La Maquina. Um time que era considerado imbativel, porque tinha um ataque de genios - e o genio maximo se chamava Alfredo Di Stefano. Foi esse o ataque que o Vasco parou - na classe, na raca, na catimba. Nessa final imortal, so' houve uma falha - a do juiz, que, entre outras coisas, anulou o gol de Chico.

O clube que nascera discriminado, porque sua torcida era formada por imigrantes portugueses, e que fora perseguido, porque admitia sem preconceito racial qualquer tipo de trabalhador em suas equipes e seu quadro social, dava mais uma licao ao futebol brasileiro. O Expresso da Vitoria mostrava que nao precisavamos escolher campo para vencer. Bastava ter alguns craques no time. E raca no coracao.

O Vasco, o Expresso da Vitoria, e' o campeao carioca de 1947. Venceu 17 jogos e empatou apenas tres; fez 68 gols e sofreu 21; o poderio de seu ataque e' impressionante: contra o Canto do Rio, chegou aos 14 a 1. O Botafogo, vice-campeao de 47, acabou sete pontos atras do Vasco.

O River tambem tem um timaco, tanto assim que e' chamado de La Maquina. E' o campeao argentino de 1947, seis pontos a frente do Boca Juniors, o vice-campeao. Marcou 90 gols, igualando o recorde obtido pelo San Lorenzo no ano anterior. Sua grande estrela e' um jovem de 21 anos, Alfredo Stefano Di Stefano. Dono de tecnica perfeita, ele e' tambem um goleador: foi o artilheiro de 47, com 27 gols. Di Stefano ja' e' conhecido como La Saeta Rubia (A Flecha Loura), tal a sua velocidade.

O Primeiro Campeonato Sul-Americano de Campeoes foi promovido pelo Colo-Colo e contava com a participacao de sete clubes, campeoes de seus respectivos paises. A formula era simples: Todos contra todos, em turno unico, pontos corridos. O Vasco chega a sua ultima partida no torneio com apenas um ponto perdido, consequencia de um empate com o time da casa, o Colo-Colo. O River, surpreendentemente, perdeu para o Nacional de Montevideu por 3 a 0. So' a vitoria lhe mantera' as esperancas. Depois, ainda tem uma partida a cumprir, contra o Colo-Colo.

Os dois times estao dispostos em campo. De um lado, o Vasco , de camisa preta com faixa diagonal branca e calcoes brancos, com Barbosa; Augusto e Wilson; Eli, Danilo e Jorge; Djalma, Maneca, Friaca, Ismael e Chico; do outro, o River, de camisa branca com faixa diagonal vermelha e calcoes negros, com Grisetti; Vaghi e Rodriguez; Iacono, Rossi e Ramos; Reys, Moreno, Di Stefano, Labruna e Lostau.

O grande desfalque do Vasco e' o artilheiro e idolo Ademir, que fraturara o pe' direito na vitoria por 4 a 1 sobre o Nacional. Alem dele, nao joga o zagueiro Rafanelli, ate' entao titular absoluto, a quem o tecnico Flavio Costa resolveu barrar: "Ele era um excelente central. Mas, na vespera, senti que ele estava nervoso. era de Santa Fe', provincia do interior, e nunca tivera cartaz na Argentina. Sentia o peso de enfrentar seus famosos patricios. Preferi escalar Wilson, que nem sabia o nome dos argentinos".

Sao 18h30m no Rio de Janeiro, e, em Santiago do Chile, vai comecar a decisao. Dizer que o Rio parou seria um exagero. Mas o carioca, vascaino ou nao, esta' de ouvido colado ao radio, tentando ouvir a voz do "speaker" Oduvaldo Cozzi entre a sinfonia de chiados. Cozzi estava entao no auge de sua carreira. Seguir suas narrativas era como "assistir" ouvindo tudo nos menores e mais exaltados momentos de uma partida.

O juiz uruguaio Nobel Valentini apita, e Friaca rola a bola para Maneca. Jogo equilibrado nos dez primeiros minutos, os dois times se estudando. Numa disputa de bola com Djalma, Ramos se machuca - Ferrari entra. O jogo esquenta. Os argentinos passam a catimbar e a reclamar de cada marcacao de Valentini.

Wilson marca Di Stefano e leva vantagem, disputando cada bola com raca e categoria. Sentindo-se seguro na defesa, o Vasco parte decididamente para o ataque e Grisetti faz duas defesas dificeis em um chute forte de Chico e uma bola colocada por Danilo. Valentini interrompe o jogo e pede aos carabineiros chilenos que retirem os fotografos de tras do gol argentino, pois os flashes prejudicam a visao de Grisetti.

O ponta-esquerda Chico e' uma fera. E' ele quem obriga Grisetti a mais impressionante defesa ate' o instante, e tambem quem causa o primeiro tumulto da partida, ao entrar de sola em Iacono. Valentini chama-lhe a atencao.

Agora e' a vez do River. Labruna perde gol certo ao chutar por cima do travessao. O River explora inteligentemente os contra-ataques, a criatividade e velocidade de Di Stefano e os dribles e as arrancadas de Lostau. Mas Barbosa esta' atento e faz defesas de classe.

O clima era totalmente adverso. A torcida estava do lado do River. E juiz e bandeirinhas cometiam uma arbitragem escandalosamente facciosa. Valentini apita um penalti contra o Vasco. Barbosa conta o seu milagre:

-- Nao foi penalti, nao. Mas o que fazer contra aquele juiz? Me conscientizei de que tinha de agarrar. Entao fiquei la' debaixo dos paus; o Labruna, estrela do River, na marca de cal. Ele chutou rasteiro, e eu fui la' buscar a menina.

Antes do primeiro tempo terminar, Grisetti ainda fara' duas grandes defesas, em chutes de Friaca, um deles em cobranca de falta.

O River volta para o segundo tempo com Munoz em lugar de Reys e passa a jogar com dois ponteiros abertos. Falta de Eli em Labruna. Moreno bate de efeito, a bola raspa o travessao com Barbosa batido. Num contra-ataque rapido, Maneca enfia bola limpa para Friaca que, na hora do chute, fura inexplicavelmente, fazendo sentir-se a ausencia de Ademir.

Comocao no banco do Vasco: Wilson, que ate' entao marcara Di Stefano com perfeicao, machuca-se no tornozelo e nao pode continuar. Rafanelli entra em seu lugar.

Barbosa, com uma reposicao perfeita, da' a bola para Friaca, que de primeira passa a Chico: Gol do Vasco, aos 28 minutos. Os argentinos cercam Valentini, que afinal anula o gol, inventando o impedimento de Chico. Os vascainos peitam a Valentini e Flavio Costa entra em campo, mas os argentinos mandam no juiz.

Nos ultimos 15 minutos, a categoria cede lugar a violencia. Rossi pega Maneca para quebrar - Valentini finge nao ver. Chico, gaucho que nao leva desaforo para casa, na primeira que disputa com Rossi vai a forra, sem tomar conhecimento do tamanhao do argentino - novamente Valentini o chama a atencao. A ultima oportunidade ainda e' do Vasco. Ismael passa por quatro, mas Grisetti faz boa defesa. Vao ser necessarios os cinco minutos de prorrogacao previstos no regulamento.

Antes mesmo que esta comece, explode uma briga entre Chico e Mendez, que substituira Iacono, e ambos sao expulsos. Maneca, contundido, e Friaca, cansado, dao lugar a Lele' e Dimas. Nenhum dos dois times pensam em jogar na defesa: o River, por precisar da vitoria; o Vasco, por sentir que pode vencer. Em apenas 5 minutos, os torcedores presenciam incriveis defesas de Grisetti e Barbosa.

A ultima chance e' de Lele', de pe' direito, forte. A bola sai como um foguete, mas Grisetti desvia com a ponta dos dedos. Termina a prorrogacao. O Vasco e' campeao dos campeoes sul-americanos.

Ao som do hino nacional brasileiro, o presidente chileno Gonzalez Videla entrega o caneco aos vascainos, sob os aplausos do publico que lota o Estadio Nacional de Santiago. Os chilenos, que haviam de inicio torcido para o River, reconheceram a superioridade do Expresso da Vitoria.

O Campeonato Sul-Americano de Campeoes nao passou da sua primeira edicao. O jornalista Geraldo Romualdo da Silva assim descreveu o que chamou de "a culpa inocente do Vasco":

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